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B.B. King em Belo Horizonte e a triste história dos seus últimos dias

Senhoras e senhores,

uma pausa no futebol para homenagear B.B. King, que se foi na madrugada de quinta-feira. Além de gênio musical, era também uma figura especial, querido por todos que tiveram o privilégio de ter contato com ele. Há uma história sensacional dele em Belo Horizonte, com os também gênios da música, porém para o nosso orgulho, mineiros, Toninho Horta, Juarez e Celsinho Moreira.

Terminado o show, os três foram para o hotel do Rei do Blues para tentar um contato com ele. Óbvio que cada um levou os seus instrumentos né? Vai que a fera gostasse da idéia de um “amistoso”? Pois não é que o homem os recebeu como se fossem velhos amigos e até propôs uma brincadeira? Tocaram até quase amanhecer o dia!

Quem me contou essa história foi o João Bosco (da Bethânia Guimarães), de Conceição do Mato Dentro, amigo dos “Moreira” que são de Guanhães, e como todo mundo sabe, essa também acolhedora cidade pertence à “Grande Conceição”! Ele ficou de passar mais detalhes para que eu repasse às senhoras e senhores aqui do blog.

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Mas B. B. King passou por péssimos momentos na vida, lamentavelmente nos seus últimos dias, vítima da covardia e maldade humanas. No dia quatro de maio fiquei chocado com o que li no blog do crítico musical Régis Tadeu, e repasso, na íntegra, para vocês.

Na sequência, um texto sensacional da Kika Castro, no blog dela no portal do jornal O Tempo, falando das vindas de B.B. King a Beagá e um pouco da vida dele, cuja música mexeu, mexe e continuará mexendo com milhões mundo afora.

Primeiro, o texto do Regis Tadeu:

* …“Os fatos são estarrecedores. B.B. King, necessitando de cuidados médicos urgentes, estava trancafiado em sua própria casa em Las Vegas, por seu empresário, Laverne Toney. A filha Patty, desesperada, liga para a polícia e denuncia que seu pai está praticamente em cárcere privado e pede que os oficiais vão até lá acompanhados de uma equipe de paramédicos. Lá chegando, as equipes de socorro verificam que a filha estava certa: King teve um ataque cardíaco e precisa urgentemente ser internado em um hospital. A seguir, mais detalhes sórdidos surgem…”

“Outra homenagem em vida: B.B. King”

Por r-tadeu | Na Mira do Regis – seg, 4 de mai de 2015

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Primeiro, uma foto, tirada pela própria filha, mostra o estado em que o pai foi encontrado. Veja abaixo e tente não ficar deprimido:

Depois, é protocolada uma ação contra o empresário, acusado de abuso físico de idoso, roubo de centenas de relógios, joias e uma quantia estimada entre 20 e 30 milhões de dólares da conta bancária do lendário bluesman, além de restrição de acesso a medicamentos por parte de King. Por outro lado, o tal empresário alega ter uma procuração para responder por seu artista. Um verdadeiro horror!

Mesmo já sendo bastante calejado nestas histórias escabrosas envolvendo artistas em suas respectivas intimidades, não consegui ficar alheio a este estado de humilhação que atinge não apenas o homem que se tornou a personificação viva do blues para várias gerações, mas também um dos artistas mais amáveis que tive o prazer de entrevistar anos atrás. Não há ninguém no mundo que personifique tão bem a sonoridade do blues como este extraordinário guitarrista, que cunhou um estilo próprio e inconfundível.

Há um clube muito restrito dentro do universo das guitarras, composto por instrumentistas cujo som é identificável a anos-luz de distância – Jimi Hendrix, David Gilmour, Eddie Van Halen, Yngwie Malmsteen, Mark Knopfler e uns poucos outros -, mas nenhum deles tem uma identidade sonora tão imediatamente marcante quanto B.B. King.

Embora ele jamais tenha negado que surrupiou todos os licks possíveis de caras como T-Bone Walker e Blind Lemon Jefferson, King conseguiu estabelecer um padrão para o seu próprio som tão personalizado que é impossível de ser ouvido sem um sorriso no rosto. Quando você ouve um únicobend extraído de sua amada “Lucille”, a associação a seu nome é fulminante e instantânea. Tudo isto fez com que se tornasse uma referência estilística para todos os guitarristas que surgiram depois dele. Incluindo o próprio Hendrix.

Nada mal para quem nasceu em uma cabana miserável no meio de uma plantação de algodão no Mississipi em 1925. A educação feita pela avó – seus pais se separaram pouco depois que ele nasceu e cada um foi para um lado, largando o pequeno Riley B. King para trás – levou o garoto a frequentar igrejas e a cantar nos corais. Quando ganhou seu primeiro violão aos doze anos, presente do primo de sua mãe, o bluesman Bukka White, o garoto enlouqueceu. Era a possibilidade de deixar para trás uma infância e adolescência muito pobre e sofrida, tendo que trabalhar como motorista de trator nos campos para poder comer. Quando White foi para Memphis em 1948, King não teve dúvidas em seguir o seu “padrinho”.

O golpe de sorte veio quando conseguiu se apresentar no programa de rádio de outro bluesman, o famoso – e depois lendário – Sonny Boy Williamson. O sucesso foi tão surpreendente que logo o jovem guitarrista passou a ter um quadro de dez minutos dentro da programação da emissora, no qual eradisc jockey – apelidado como “Beale Street Blues Boy” -, embora isto não o impedisse de cantar ali mesmo. Logo passou a ser chamado de “Blues Boy King”. Daí para “B.B” foi um passo…

Mas foi o encontro com o ídolo T-Bone Walker que fez com que King assumisse de vez o seu rumo como guitarrista. Começou a gravar algumas canções em 1949 sob a produção do até então desconhecido Sam Phillips – que mais tarde fundaria a mitológica gravadora Sum e descobriria um outro garoto, só que branco, chamado Elvis Presley. Todos os envolvidos apostavam no sucesso “Miss Martha King”. Nada aconteceu.

O estouro nacional só aconteceu em 1952 com “3 O’Clock Blues”. A partir dele, King emendou um hitatrás do outro – para os padrões da época, claro -, como “Woke Up This Morning”, “Everyday I Have the Blues” e “Please Accept My Love”, entre tantos outros.  O guitarrista passou a ser o maior astro doblues – condição que carrega até os dias atuais – e passou a excursionar como um louco, tocando tanto em locais com maior capacidade de publico e mais luxuosos quanto em pequenos bares ao longo das imensas estradas americanas.

O sucesso e a respeitabilidade que King conseguiu erguer em torno de seu nome o levou em 1956 a tomar uma decisão até então inédita: criar seu próprio selo, Blues Boys Kingdom, com o qual produziu uma série de discos para jovens e veteranos bluesmen.

Mas se era um fenômeno dentro do mercado americano de blues, o mesmo não acontecia no restante do planeta. Bem, pelo menos até 1970, quando King arrebentou com o sucesso obtido por sua versão de “The Thrill is Gone”, uma obscura canção dos anos 50 composta por Roy Hawkins. A partir dali, ele se tornou conhecido mundialmente e acabou tendo seu nome imediatamente relacionado a qualquer menção à palavra “blues”. Também ajudou bastante o fato de ele ter sido convidado pelos Rolling Stones para abrir os shows da turnê que a banda inglesa fez em 1969 pelos Estados Unidos, já que foi visto por uma plateia roqueira branca que o catapultou a um novo patamar de visibilidade e apreciação. Tudo isto fez com que seu sucesso perdurasse durante as décadas de 70 e 80, principalmente por meio de canções como as maravilhosas “I Like to Live the Love” e “To Know You is to Love You”.

Quando se pensava que King iria cair em certo ostracismo disfarçado de aposentadoria, eis que sua participação em 1988 no filme e no álbum Rattle and Hum, do U2, dando um show de carisma e mostrando aqueles licks na ótima canção “When Love Comes to Town”, revigorou a sua carreira novamente. O guitarrista, mais uma vez, foi apresentado em escala mundial a uma molecada que nunca havia ouvido um blues na vida. Foi o bastante para que chovessem novos convites para turnês com o velho bluesman.

O guitarrista conduziu sua carreira com segurança nos anos seguinte, gravando discos consistentes e se divertindo em parcerias, como aquela com Eric Clapton – um assumido fã de King desde os tempos de garoto – registrada no bom álbum Riding With the King, lançado em 2000. Mas a partir de então ele veio se sentindo cada vez mais cansado com o peso da idade e de sua diabetes. Chegou até a anunciar uma “turnê de despedida” em 2006. Só que isto não acabou acontecendo pela absoluta relutância de King em abandonar os palcos e os aplausos das plateias mundiais.

King vinha se apresentando regularmente, mesmo tocando sentado o tempo todo. Mas depois de algumas apresentações um pouco problemáticas no ano passado, em que passava grande parte do tempo conversando com a plateia e não tocando e cantando com o sempre fez, começou a pegar muito mal. E agora aconteceu este fato lamentável que relatei no início deste texto.

Assim como fiz com Lemmy – leia aqui -, presto neste exato momento as minhas homenagens ao velho bluesman enquanto ele ainda está vivo. Não vou esperar a sua morte para celebrar a sua obra musical simplesmente espetacular. Faço isto agora. E para sempre.

https://br.noticias.yahoo.com/blogs/mira-regis/outra-homenagem-em-vida-b-b-king-192541233.html

* * *

* MINHA HOMENAGEM A B.B. KING, O REI DO BLUES

BLOG DA KIKACASTRO

Cristina Moreno de Castro

15/05/15 – 12H04

Todas as fotos: arquivo pessoal

Hoje acordei com a notícia de que o rei do blues havia morrido, enquanto dormia. Apesar da tristeza, não me surpreendi. Não por ele ter 89 anos de idade — até muito recentemente, B.B. King ainda mantinha seu ritmo frenético de um show a cada dois ou três dias, como ele fazia desde a juventude. (Outros astros do rock e do blues, depois que se consolidam no sucesso, preferem parar com essa maratona de turnês, que é tão desgastante. Mas B.B. amava fazer shows!). Não me surpreendi por causa de uma foto que a filha de B.B. divulgou há 15 dias, mostrando um velhinho tão abatido que nem parecia aquele que eu vi nos palcos apenas cinco anos atrás. Como acontece com outros astros, no caso de B.B. parece que há uma disputa judicial entre família e empresário, uma daquelas coisas nojentas envolvendo dinheiro e herança.

Foi lendo sua autobiografia (escrita em coautoria com David Ritz), que aprendi um pouco sobre a história do Blues Boy King, nascido Riley Ben King. Como tantos outros negros de sua geração, ele nasceu e cresceu em uma plantação de algodão — local onde vários blues foram cunhados, worksongs cantadas pelos negros escravos e semiescravos para amenizar o árduo trabalho que tinham que desempenhar. Assim como B.B. King, Magic Slim (morto em 2013) também passou pelas “cotton fields”. Também passaram por esta “escola” forçada os bluesmen T-Model Ford (morto em 2013), Pinetop Perkins (morto em 2011) e o incrível Muddy Waters (morto em 1983), dentre vários outros do Delta do Mississippi.

O que aprendi em outubro de 2007, com essa leitura, coloquei no sétimo programa de rádio da Barbearia de Blues, todo dedicado ao rei do blues, que já abre com a estonteante guitarra de “Everyday I have the blues”. Contei, por exemplo, que os dois grandes ídolos de King eram Blind Lemon Jefferson e Lonnie Johnson — que fecha o programa com “Me and my crazy self”. No programa número 8, falo sobre a guitarra Lucille e como ela foi batizada assim por King. E ainda dediquei o último programa da Barbearia, o mais importante e especial, à parceria entre B.B. e o “deus da guitarra” Eric Clapton, com a maravilhosa “Three O’Clock Blues”. CLIQUE AQUI para baixar e ouvir gratuitamente todos os programas da Barbearia 😉

Em 2010, já morando em São Paulo, fiquei sabendo que B.B. voltaria a se apresentar na cidade, com seus 84 anos de idade. Os ingressos para o show no Bourbon Street eram, como sempre, escandalosamente caros (algo como R$ 1.500) e, na Via Funchal, estavam por R$ 300 pra cima. E eu, naqueles tempos mais do que nunca, estava totalmente dura. Provavelmente não teria conseguido ir ao show, se não fosse por uma promoção da rádio Eldorado, daquelas que pedem que a gente envie uma frase com as palavras X e Y. Se não me engano, as palavras tinham que ser B.B. King, Eldorado e Bourbon Street. Fiz uma frase despretensiosa e quase caí da cadeira quando recebi o email dizendo que havia sido uma das escolhidas! Ganhei dois ingressos para a plateia premium, bem pertinho do palco, e chamei a amiga Maná para ir comigo, principalmente como agradecimento por ela ter sido a pessoa que me avisou sobre a promoção.

INGRESSO

Gravei o show inteirinho no meu gravador de áudio, mas, infelizmente, não consigo achar o arquivo em nenhum lugar mais. Mas ainda ficaram dois pequenos vídeos, que hoje divulgo pela primeira vez. Um mostrando a entrada triunfal do rei do blues, aplaudidíssimo, e já procurando sua cadeirinha em que tocaria sentado durante as duas horas seguintes:

E outro mostrando como ele era conversador e adorava contar piadas e fazer gracinhas antes de começar a tocar uma música. Ficou papeando o show todinho! 😀

Não filmei as músicas porque eu queria estar 100% concentrada em ver B.B. King tocando guitarra. Mas isso foi uma pena, porque não tenho nenhum registro meu daquele show. Felizmente, várias outras pessoas fizeram filmagens daquele show, que podem ser encontradas em uma busca simples no Youtube.

No final do show, B.B. King, com toda a sua simpatia indescritível, ainda ficou uns 30 minutos sentadinho em seu trono, diante de uma fila gigante de fãs com vinis e CDs, autografando um a um e posando para fotos! Quantos ídolos da música fazem o mesmo por seus fãs?

Eu tinha o hábito de enviar emails semanais para a família e os amigos mais chegados de Beagá, contando como estava sendo a vida na Terra Cinza. Naquela semana, a mensagem foi assim:

“Nem me lembro mais o que aconteceu no resto da semana, depois da noite de ontem. Fui ao show do BB King, um dos meus grandes heróis da música (e ainda vivo, aos 84 anos, com o mesmo vozeirão que tinha aos 40). (…) Ontem vi o melhor show da minha vida! Ele ainda toca e canta como ninguém, a banda é toda maravilhosa e ele não pára de conversar com o público, contar piadas etc. Anexo algumas fotos pra vocês verem.”

Pra fechar este post, então, coloco algumas dessas imagens que enviei naquele email. Para sempre lembrarmos de um B.B. King impressionante em sua alegria, simpatia, talento, bom humor, e todos os outros requisitos, musicais e pessoais, que o coroaram como rei do blues!

CLIQUE AQUI para ver mais fotos!

http://www.otempo.com.br/blogs/blog-da-kikacastro-19.180341/minha-homenagem-a-b-b-king-o-rei-do-blues-19.450424

 


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Comentários:
6
  • Kika Castro disse:

    Olá, Chico! Fiquei feliz e honrada ao saber que você lê meu blog e gostou do post do B.B. King. Fiquei muito triste quando soube que ele morreu, principalmente pelas circunstâncias denunciadas há duas semanas por sua filha. O que me consola é que ele deixa um legado e um exemplo que atravessará várias gerações. Ah, meu pai trabalhou com você por oito anos na rádio Alvorada, José de Souza Castro. Ele te mandou um abraço! bjos

  • Kika Castro disse:

    Olá, Chico! Fiquei feliz e honrada ao saber que você lê meu blog e gostou do post do B.B. King. Fiquei muito triste quando soube que ele morreu, principalmente pelas circunstâncias denunciadas há duas semanas por sua filha. O que me consola é que ele deixa um legado e um exemplo que atravessarão várias gerações. Veja o caso do menino Félix, de apenas 10 anos, que arrebenta em “Everyday I Have the Blues”, do rei: http://kikacastro.com.br/2014/08/06/um-jovem-b-b-king 🙂 Ah, meu pai trabalhou com você por oito anos na rádio Alvorada, José de Souza Castro. Ele te mandou um abraço! bjos

  • Pedro Vítor disse:

    Magnifico ler isso.

    Eu tenho este disco com Eric Clapton.

    Eu sou baterista, e coloco o Fone e fico viajando no em um “jam” do BB King quieto, sozinho. Fiz muito isso quando estava aprendendo a tocar.

    Nunca fui em show do mestre.

    O BB King vai deixar saudade!

  • Silvestre Oliveira disse:

    Tive o prazer de ganhar dele uma palheta no 1o show dele no Brasil,nos ano 80.
    Era estudante e peguei meu salário de estagiário e comprei 3 entradas para o show no Palácio das Artes.
    Dos 3 ingressos no dia anterior vendi 2, que recuperei o meu grande salário de estagiário.
    Diz as pessoas que havia comprado que não era cambista. Precisa recuperar meu salário e também não podia ficar sem assistir ao Rei dos Blues.
    Assistimos juntos o show na 1a fila do PA.
    No fim do show praticamente subimos ao palco para cumprimentar e pegar umas palhetas que B.B King estava distribuindo. Peguei 1 e o cumprimentei.
    Eu toquei naquelas mãos que embalavam Lucille.