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Para ganhar “vale tudo”, diz Carlos Bilardo, treinador com fama de mau

Ele diz que agora é ex-treinador. Anos atrás disse ao jornal Público, de Portugal: “Não vou voltar a ser treinador, nem no exterior nem no meu país. Não quero ir para fora e aqui, se perco três jogos, insultam-me e colocam em causa tudo o que construí nestes anos. Por isso, basta. Nem a seleção.”

Tive o prazer de entrevistar e conviver durante algumas semanas com Bilardo. Um grande treinador e gente boa, de uma enorme simpatia, apesar de tanta porrada que tomou da imprensa, argentina principalmente. Um ganhador, como jogador e treinador. Médico por formação, fama de mau e catimbeiro, não esconde de ninguém que para ganhar “vale tudo”. Por isso mesmo tem fama também de doido. Quando era meio campista jogava com agulhas escondidas no calção para furar e desviar a atenção dos adversários. Tem fama também de dopar seus times ou dar tranqüilizante para os adversários. Maradona conta que o lateral Branco tomou uma água batizada naquela vitória argentina sobre o Brasil na Copa da Itália em 1990. Bilardo era o treinador.

Em 1986 fui à minha primeira Copa do Mundo, no México. Cobri a Argentina, pela Rádio Inconfidência. Vi de perto os shows do Maradona, entrevistei Bilardo várias vezes. Em 1998 me encontrava com ele quase todos os dias, em Paris, no Centro de Imprensa da Copa da França. Dividi banco de metrô com ele em algumas idas ou vindas. Um dia resolveu ajudar uma senhora mais velha carregar uma enorme mala na saída do metrô. A escadaria era enorme na estação Porte de Versailles, perto do Centro de Imprensa. Bufando de cansaço na chegada, disse que se sonhasse que a mala fosse tão pesada não teria sido tão gentil.

Dia 16 de março ele completou 79 anos de idade. Concedeu uma boa entrevista à Folha de S. Paulo, que vale a pena ler:

“Para chegar a Maradona, Messi tem de ganhar a Copa, diz Carlos Bilardo”

Técnico da seleção campeã em 1986 considera argentino o melhor do mundo

Por Alex Sabino

Falar com Carlos Bilardo, 79, exige paciência e boa dose de diplomacia.

“Você é de onde?”

“Está em Buenos Aires?”

“É por telefone?”

“Qual é o assunto?”

“Ligue de novo depois de amanhã, está bem?”

Depois de quatro telefonemas e conversas que envolveram até a mulher, Glória, o campeão mundial de 1986 aceitou falar sobre o que espera ver na Copa da Rússia, o futebol atual e a seleção argentina, que ele considera uma das favoritas ao título.

Técnico para sempre ligado ao futebol de resultados e ex-meia do Estudiantes tricampeão da Libertadores, Bilardo levou também uma seleção recheada de atletas lesionados à final em 1990. Prova do seu poder de espremer vitórias quando menos se espera. Uma das vítimas naquele ano foi o Brasil.

Com respostas sem floreios, no mesmo estilo de seus times, Bilardo não vê comparação entre Messi e Cristiano Ronaldo. Seu compatriota é melhor. E sua lista dos três maiores da história (Maradona, Pelé e Cruyff) só não aumenta para quatro porque falta a Lionel algo que ele pode conquistar em julho, em Moscou: o título mundial.

 

Folha – O senhor acha que veremos algo novo taticamente no Mundial da Rússia?
Carlos Bilardo – Não. Futebol não teve tantas novidades assim no decorrer dos anos.

Alguma seleção pode surpreender? Bélgica, por exemplo?
Não acredito. Creio nos times de sempre. Argentina, Brasil, Alemanha, Espanha, França… Mundial é torneio de poucas surpresas. Essas que citei são as seleções mais importantes, aquelas que as pessoas querem ver em campo.

E o que podemos esperar da Argentina?
Estamos bem. A seleção é forte e pode ir além de 2014, quando poderíamos ter vencido. Na final, fomos melhores que a Alemanha. Depende de como vai chegar, do momento. Mas vejo a equipe com grandes possibilidades.

goleada por 6 a 1 sofrida no amistoso contra a seleção espanhola influencia?
Tem de influenciar. Você não pode sofrer seis gols em um jogo e achar que tudo deve  continuar daquele jeito. Faltou alma em campo, de saber o que representa vestir a camisa da Argentina. Mas é melhor ter acontecido agora e não na Copa do Mundo.

A questão que imagino que sempre lhe fazem é a respeito de Messi.

O que posso dizer? Ele é o melhor jogador do mundo. Não há outro como ele.

Mas a discussão é o quanto ele precisa ser campeão mundial para estar entre os melhores da história. O senhor concorda que ele tem de ganhar a Copa pela Argentina para estar no mesmo nível de Maradona?
Sim, precisa. Para chegar ao nível de Maradona, Pelé e Cruyff, Messi tem de ganhar a Copa do Mundo. Cruyff não ganhou, mas era um jogador tão especial que transformou a Holanda. Messi tem sempre a comparação com Maradona. Para chegar ao mesmo patamar, ele tem de trazer a Copa para a Argentina.

Muitas vezes há a impressão de que Messi não é tão adorado na Argentina quanto é em outros países. Mesmo no Brasil muita gente gosta dele.
Isso muda com títulos. Mas nessa história conta muito a imprensa. Há a imprensa a favor e a imprensa contra. É sempre assim. Com os jogadores que a Argentina tem, podendo contar com Messi, a seleção está bem.

Como Messi deve jogar na seleção?
Com liberdade total. Sem qualquer obrigação defensiva.

O senhor não é grande fã de Jorge Sampaoli…
Sobre isso eu não falo.

Mas quando ele foi escolhido o senhor disse que se Sampaoli era o melhor treinador da Argentina, era preciso começar tudo de novo.
Não creio dever falar sobre isso agora. Não desejo comentar sobre o técnico da seleção.

As pessoas chamam a sua escola de futebol de bilardismo. O senhor concorda?
Não existe bilardismo. Eu sempre preparei meu time para ganhar partidas de futebol.

Incomoda a opinião de que a sua filosofia é o antifutebol?
Este tipo de crítica não me incomoda mais. Por exemplo, em 1976, quando desembarquei em Cáli para dirigir o Deportivo, a manchete do jornal local foi “chegou o antifutebol”. Sabia disso? Meses depois fomos o primeiro time colombiano a chegar a uma final de Libertadores. Quando eu jogava no Estudiantes foi a mesma coisa. Isso porque éramos o primeiro time pequeno, fora de Buenos Aires, a ganhar tudo. Depois diziam que a seleção jogava feio quando eu era o técnico. Ganhamos a Copa do Mundo e chegamos à final no torneio seguinte.

As críticas feitas em 1986 antes da viagem para o México ainda não foram esquecidas?
Já passou. Mas eu mandei minha mulher e minha filha morarem com a minha sogra para que não sofressem com as críticas na rua. O resultado final é a resposta de tudo.

O senhor disse em entrevistas que a vitória justifica tudo.
Sim, eu disse. Porque é verdade.

Ficou na história que havia garrafa de água com algum medicamento dada ao lateral Branco na partida entre Brasil e Argentina na Copa de 1990…
Não teve nada disso. Isso é resultado de entrevista que dei há alguns anos e que, quando publicada, tudo o que disse acabou interpretado da forma errada. Não existiu isso.

O senhor tinha um programa de rádio que agora não está mais no ar, mas continua falando sobre futebol, opinando… O quanto o futebol faz parte da sua vida ainda?
É a minha vida. Sou fascinado. Paro para ver qualquer partida, mesmo que sejam garotos jogando na rua. Minha mulher até perde a paciência.

RAIO-X

Nome
Carlos Salvador Bilardo

Nascimento
16.mar.1939 (79 anos), em Buenos Aires

Principais títulos como jogador
Campeonato argentino (1959 e 1967), Libertadores (1968, 1969 e 1970) e Mundial de Clubes (1968). Todos pelo Estudiantes

Principais títulos como técnico
Campeonato Argentino (1982, com o Estudiantes). Campeão mundial (1986, com a seleção argentina)

https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/04/para-chegar-a-maradona-messi-tem-de-ganhar-a-copa-diz-carlos-bilardo.shtml


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