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Ubaldo, o craque que era carregado pela torcida do Galo, do Independência à Praça Sete, faz 90 anos, hoje | Blog do Chico Maia

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Ubaldo, o craque que era carregado pela torcida do Galo, do Independência à Praça Sete, faz 90 anos, hoje

Não tive o privilégio de vê-lo em ação, mas quem viu, diz que era fenomenal. Hoje é o dia do aniversário de Ubaldo Miranda. O melhor texto/homenagem que já li sobre ele é do Robertinho, do Fala Galo – www.falagalo.com.br -, quase três anos atrás. É como se o leitor estivesse na arquibancada do Independência naqueles aos 1950, cantando junto o refrão que agitava o povão e fazia o Ubaldo correr. Confira, pois vale a pena conhecer algumas das histórias deste grande jogador:

Lucas Miranda, Amorim, Vavá, Mauro Patrus (tomando refrigerante), Ubaldo e Sinval

* “Ubaldo – Fugi para gravar meu nome”

Por: Betinho Marques 

“Tem nego Ubaldo aí, tem nego Ubaldo aí?!” Era assim que no meio do aperto ou marasmo a torcida do Galo provocava quem podia mudar a partida. Esta era uma das formas de fazer o Miquica enlouquecer a torcida do Galo nos anos 50.

Ubaldo Miranda, 87 anos (completando 90, hoje), nascido na bela das belas, Divinópolis, fugiu de casa para fazer morada e história no Atlético. Vendedor de tudo, como disse por inúmeras vezes, vendia de pé-de-moleque a chouriço e linguiça. Estas eram apenas algumas especiarias dos irmãos Miranda que compunham em nove, um time de irmãos (6 moças e 3 rapazes).

Nascido em 19 de julho de 1931, Ubaldo “cascou fora” de casa para ir para o Galo. Foi encontrado em Lourdes onde morou, nas dependências do Estádio Antônio Carlos cerca de três meses depois. Desde cedo, já dizia: “Um dia, vou ser jogador profissional e vou ser falado por todo o mundo”. Quando partiu de Divinópolis, fez tudo em segredo. Juntou suas pequenas economias, arrumou sua mala e levou consigo uma carta do cartola identificado como Coimbra, do time local, o Internacional. A tal carta era endereçada a um meia do Galo, Paulo Cury, o mesmo que foi presidente do Galo entre 1995 e 1998.

Um novo perfil de artilheiro

Acostumado com atacantes refinados como Mário de Castro, pertencente ao Trio Maldito nos anos 20, encantada com Guará, o Perigo Loiro, Campeão dos Campeões em 37 e maior artilheiro dos clássicos contra o rival, ainda estava recente também a memória de Carlyle nos anos 40. O torcedor atleticano, na década de 50, acrescentou em sua identidade um novo ingrediente: a raça e a crença no impossível.

Relatado na história como um jogador hábil, porém, desengonçado, Ubaldo foi destaque em uma década histórica do Atlético que ainda não era o GALO. Isto mesmo! O Atlético era o maior campeão de Minas, mas por incrível que possa parecer, era obstinado pelo tão sonhado TRI. Por vezes, bateu na “trave”. O celeiro da época tinha ídolos imortais como: Cafunga, Mão de Onça, Haroldo, Zé do Monte, Vavá e Lucas Miranda. Destacar neste elenco não era fácil, mas Ubaldo era o homem da velocidade, do entusiasmo e dos gols espíritas. Miquica era o homem das bolas impossíveis, dos gols improváveis, assim conquistou a torcida.

Fora da Conquista do Gelo e o Tricampeão Improvável que virou Penta

Em função de uma convocação do Ministério da Defesa(Exército), Ubaldo ficou de fora da Excursão à Europa em 1950, o Campeonato do Gelo. Ricardo Diez, técnico do Atlético, lamentou que o futebol brasileiro e mundial perderia sem a presença do Mágico. Em 1954, num campeonato no mínimo inusitado, o Cruzeiro havia vencido dois turnos e o Atlético um. Cada turno vencido equivalia a 10 pontos. Desta forma, o time do Barro Preto somava 20 pontos e os alvinegros 10. Para se sagrar campeão era preciso somar 25 pontos e cada vitória nas finais valiam 5 pontos, portanto, os azuis precisavam de apenas um triunfo.

Neste cenário, com muita confiança do rival e muita cautela dos atleticanos começou o primeiro embate, que segundo os cruzeirenses seria a primeira e última partida da final. No primeiro jogo, já no ano seguinte, o Atlético venceu por 2 x 0, com gols de Joel e Gastão no dia 17/04/1955. Na segunda partida em 21/04/1955, o Atlético foi supremo e Ubaldo o nome do jogo com dois gols. Joel completou o placar de 3 x 0. Com a vitória no segundo duelo, os clubes estavam empatados com 20 pontos.

Na terceira peleja, em 24/04/1955, os rivais empataram por 1×1. Mais uma vez, Ubaldo inaugurou a partida. Com o empate Atlético e Cruzeiro acumulavam 22,5 pontos. Haveria o quarto clássico, no dia 01/05/1955, dia do trabalhador. Se houvesse empate, o jogo iria para a prorrogação. Caso persistisse a igualdade os dois seriam declarados campeões. Porém, Ubaldo queria gravar seu nome na história do alvinegro. Foi dele o primeiro gol do jogo, aos 16 minutos do primeiro tempo. O tento, naquele momento, pela forma, pela valentia e pelo desejo de seus companheiros em conquistar o tão desejado TRI, propiciou um cenário que fez  surgir os primeiros gritos de Galo, ali no Independência.

Já no fim do jogo, aos 43 minutos, Joel fez o segundo gol e a cidade comemorou o título por vários dias. Os jornais diziam: “Enfim, o Atlético chega ao seu tricampeonato”. Ubaldo era dos mais festejados, o camisa 9 desencantou a maior torcida de Belo Horizonte, tudo era festa. Mais tarde, o agora GALO, pegaria gosto e chegaria na sequência ao seu pentacampeonato (52,53,54, 55 e 56). Ubaldo em 1956, estava no Bangu e não estava no quinto campeonato consecutivo. Foi na ida para o Rio de Janeiro, que uma de suas filhas nasceu em terras cariocas. Vera Lúcia, uma das filhas muito presentes na vida do craque atleticano, foi “fabricada” nesta transferência. Por curiosidade, Vera recebeu o nome em função do trem de luxo que fora inaugurado em 29 de março de 1950, o Vera Cruz, que levava mineiros ao Rio de Janeiro. Miquica tem 4 filhos (Vera Lúcia, Ana Maria, Jaqueline e Júlio César). Ubaldo foi casado por 36 anos com Anísia Pontes, sua linda esposa, como conta a própria filha

Miquica voltou em 58 para ser carregado pela Massa

Após bons momentos no clube carioca, atuando ao lado de Zizinho, a torcida desejava a volta do homem dos gols espíritas, sem ângulo, das arrancadas e do vigor de um obstinado atacante. Miquica voltou em 1958 para conquistar seu último título com a camisa atleticana. Foi decisivo nas finais de 1958, sendo dele o gol no primeiro jogo por 1×0 contra o América. Seu companheiro Alvinho fez o 1×0 na segunda partida. Estava ali, fechada mais uma cicatriz, já que, em 48 o América havia vencido o campeonato que tirou o tão desejado tri de forma bastante contestada, mas isso contamos em outra oportunidade. A torcida levou Miquica nos ombros do Indepa ao centro de BH para mais uma das longas festas atleticanas.

As contusões graves nos joelhos fizeram a carreira de Ubaldo diminuir seus picos. Após uma contusão num jogo contra o Bahia em 1959, seu futebol não foi mais o mesmo. Jogou pouco tempo em clubes do interior de Minas, como Villa Nova, URT, jogou mais uma vez no Galo em 1961 e parou definitivamente em 1962.

“Fiz 135 gols só jogando aos domingos, se jogasse nos tempos de hoje teria feito mais de 1000”

Gratidão ao Atlético e a Alexandre Kalil

Após uma vida de Atlético, a gratidão de Ubaldo é toda ao Atlético. “Foi o Atlético que me acolheu, foi o Atlético que fez quem eu sou. O Atlético recebia os negros. Eu fugi de casa e após três meses meus pais me acharam lá no Antônio Carlos, morei ali no Estadinho”.

Ubaldo é aposentado do estado, participou como encarregado na construção do estádio Mineirão, coordenou gandulas e coleciona histórias. Hoje, mora sozinho, muito bem assistido pelos filhos, em especial pela Vera Lúcia, que semanalmente “fiscaliza” os hábitos do serelepe Ubaldo. Morador do bairro Alípio de Melo, o Negão passou há pouco tempo por dificuldades financeiras e de saúde. Porém, segundo conta Vera, Kalil foi quem o amparou, e através dele, mais uma vez, o Atlético ajudou na recuperação do seu pai. No desespero após uma pneumonia, ela procurou ajuda e resume da seguinte forma, sua gratidão ao atual executivo da Prefeitura de Belo Horizonte:

“Para o Kalil, se preciso for, pelo carinho e por tudo que fez ao cuidar do meu pai, inclusive me xingar preocupado, eu daria um órgão meu para salvar a vida dele. Acho que isto resume tudo”

“Tem nego Ubaldo aí, tem nego Ubaldo aí?!” Foi assim, várias vezes, carregado do Indepa ao centro de Belô que a torcida apaixonada sempre reverenciou quem por este manto sangrou. Fugitivo de Divinópolis, nunca esqueceu de lá. Morou debaixo das arquibancadas do Estadinho com uns trocados das suas economias, conquistou o que queria, o povo!

Ubaldo está vivo e imortalizado no coração da Massa pelos dribles não convencionais e por fazer possível o que não podia ser. Devoto de São Judas, talvez, a fé explique Ubaldo, que veio do nada para o tudo, e talvez, também explique o Galo aos mais novos.

https://www.falagalo.com.br/posts/ubaldo-fugi-para-gravar-meu-nome/

Ubaldo Miranda (direita), com o saudoso Joaquim Tóia, em foto do ótimo blog Canto do Galo, do Eduardo de Ávila: https://blogs.uai.com.br/cantodogalo/uma-estatua-para-joaquim-toia/


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