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Três anos de Brumadinho, seis anos de Mariana e ninguém preso pelos crimes da Vale, que agora liquida até condomínio de luxo em Nova Lima

No dia 5 de novembro de 2015 uma barragem gigante acabou com as comunidades de Beto Rodrigues e Paracatu de Baixo, devastou 650 km de biodiversidade do Rio Doce até o mar e matou 19 pessoas. Das 110 casas que se comprometeu a reconstruir em Bento Rodrigues, apenas 10 saíram do papel até agora.

No dia 25 de janeiro de 2019 foi a vez da comunidade de Córrego do Feijão, em Brumadinho, ao lado da capital de Minas Gerais, sofrer um dos maiores crimes da história do Brasil, com 270 mortos, seis pessoas ainda desaparecidas e um problema ambiental monstro, dessa vez com o Rio Paraopeba como protagonista, em direção à Bacia do São Francisco.

Com o poder descomunal do setor da mineração, empurra daqui, empurra dali, ninguém na cadeia e vida que segue.

Para melhor conhecimento dos subterrâneos, sugiro que assistam o documentário Lavra, cujo diretor é Lucas Bambozzi, exibido na 25a Mostra de Cinema de Tiradentes, que está acontecendo desde o dia 21 e vai até o dia 29:

www.mostratiradentes.com.br/filme/lavra/

Uma cena me chamou a atenção de forma especial, porque foi filmada em Conceição do Mato Dentro: um segurança (conhecido na região como “capanga”) abordou a equipe da filmagem que conversava com dois entrevistados:

__ “Quem são vocês?”

Em seguida ditou que era proibido filmar ou fotografar tudo ali, mesmo eles estando numa estrada pública.

Lá, é a inglesa Anglo American que explora, por meio de mineroduto, lavando e levando o minério do centro do estado até o Porto do Açu, em São João da Barra, no Rio de Janeiro, atravessando 33 cidades e 529 quilômetros.

Na Grande BH os problemas provocados pela mineração descontrolada são recorrentes. O paraíso que era Macacos, em Nova Lima, que o diga. Não escapa ninguém. Pessoas com menos recursos são as mais atingidas, mas ricos também começam a ser as consequências. A diferença é que com eles as indenizações e outros acertos são feitos com rapidez, conforme mostra essa reportagem de hoje no site da Itatiaia:

“Vale compra condomínio de luxo na Grande BH após problemas provocados por mina”

Moradores de mansões no Condomínio Jardim Monte Verde começaram a observar rachaduras nos imóveis por proximidade de minas da Vale

Por LUCAS PAVANELLI E LUCAS RAGAZZI

Condomínio de luxo em Nova Lima foi comprado pela Vale

A mineradora Vale comprou todas as casas e lotes de um condomínio de luxo em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, depois que um estudo geológico feito no local classificou o empreendimento imobiliário como “área de risco” devido a proximidade de barragens. A perícia foi realizada após trincas e rachaduras surgirem em vários imóveis e detectou instabilidade nas construções por conta da atividade de mineração nas imediações.

As mais de 30 casas e 51 lotes do condomínio teriam custado à mineradora mais de R$ 100 milhões, conforme levantamento feito pela reportagem tomando como base anúncios de venda de mansões do condomínio. A empresa não informou o valor oficial da negociação. Além de adquirir os imóveis, a Vale também pagou indenizações aos moradores por danos no processo.

O Condomínio Jardim Monte Verde, localizado às margens da BR-040, sentido Belo Horizonte, é vizinho da mina Mar Azul e fica muito próximo das barragens B6/B7 da estrutura. Uma outra mina, a Capão Xavier, fica do outro lado da rodovia. O local conta com 51 lotes e infraestrutura com clube particular, quadras de vôlei e futebol, centro de convivência e parque infantil.

A Vale confirmou que fez uma proposta aos condôminos, em 2020, para reparação da área, “incluindo a aquisição dos imóveis e indenização às famílias”. A reportagem perguntou qual o valor pago pela mineradora aos moradores, mas não obteve resposta.

Em nota, a mineradora disse, ainda, que um estudo técnico feito por uma empresa terceirizada “constatou interferências da operação da mina Capão Xavier em área do condomínio Jardim Monte Verde, em Nova Lima (MG).”

“De acordo com a pesquisa, a geologia do terreno é mais suscetível a deformações do solo”, disse a Vale.

A reportagem apurou que quatro famílias ainda vivem no condomínio, mas já negociaram seus imóveis com a mineradora e estão em processo de mudança.

Casas de luxo

A reportagem identificou que, até pouco tempo, uma corretora de imóveis especializada em condomínios de luxo na região, negociava a venda de uma casa avaliada em R$ 1,8 milhão no condomínio. O imóvel possui cinco quartos, três banheiros e quatro vagas de garagem, piscina, sauna, churrasqueira, salão de jogos e de ginástica distribuídos em uma área construída de 570 m². Cada lote tem cerca de 2.000 m².

Abordado sobre o valor e as características do imóvel, o corretor afirmou que o anúncio seria desativado já que a Vale havia adquirido o condomínio.

Uma ex-moradora, que não quis se identificar, disse que a maioria das casas do condomínio são ainda mais valiosas do que a encontrada pela reportagem. Segundo ela, moradores ficaram com medo quando as rachaduras começaram a aparecer em suas casas.

A reportagem apurou, também, que a Vale deve compensar a Prefeitura de Nova Lima, já que as ruas internas do condomínio são públicas, ou seja, pertencem ao município.

Barragem em risco

O Complexo da Mina de Mar Azul conta com uma série de barragens. A mais próxima ao condomínio Jardim Monte Verde é a B6/B7. Aproximadamente 500 metros de distância do local está a barragem B3/B4, uma das três estruturas que está em nível 3 de emergência desde 2019, em estado de “rompimento iminente”. A Vale anunciou um plano para descomissionar a barragem e retirou de suas casas cerca de 200 moradores que viviam na Zona de Autossalvamento (ZAS), ou seja, nas imediações da barragem e poderia ser atingidos em caso de rompimento.

Do outro lado da rodovia, está a mina Capão Xavier, que entrou em operação em junho de 2004 e pertencia às Minerações Brasileiras Reunidas (MBR), adquirida pela Vale em 2007. A jazida é estimada em 173 milhões de toneladas de ferro de alto teor.

https://www.itatiaia.com.br/noticia/vale-compra-condominio-de-luxo-na-grande-bh-apos-problemas-provocados-por-mina


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Comentários:
4
  • Raws disse:

    Tão triste como as mortes, tão absurdo como a impunidade, é o ainda iminente risco de tragédias maiores e do mesmo setor.

  • Horacio disse:

    Todo lugar que eu vou e tudo que eu leio só destacam as vantagens da privatização. Até agora não sei em que a privatização da vale me beneficiou.

    O monopólio fechou todas as siderúrgicas de pequeno porte e as grandes abriram suas minas. Com o minério daqui, a China produz bilhões de toneladas de aço que nos faz concorrência. Exportamos minério e empregos. Alguns parentes saíram a procura deles, dos empregos.

    Passamos de um monopólio com freio político a um monopólio que pode comprar qualquer coisa, até amor verdadeiro. Quem deveria cumprir suas obrigações fica aí protelando, só pode ser amor, não tem outra explicação.

    Você não citou, mas o estado gastou uma fortuna com um novo sistema de captação de água do paraopeba para a grande BH. Depois de Brumadinho nunca mais se falou o que estamos bebendo. Eu tomo cerveja sempre que possível para me proteger dos metais pesados e outras porcarias.

    Ano de eleição, vamos ver o que esta corja que se fartou na desgraça dos outros vai vir falar. Tô curioso.

  • Geraldo Lopes disse:

    É o “vale quanto pesa” da justiça brasileira!

  • Moises Cristiano Almeida disse:

    É inacreditável depois de uma tragédia como a de Brumadinho ninguém foi julgado ou sentenciado, 270 vidas foram embora tragicamente