Blog do Chico Maia

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Na goleada do Flamengo, o exemplo da diferença entre o atual e o antigo

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Felipão continua achando que quando se trata de uma instituição forte a camisa tem “peso” no futebol. Que inflamados discursos motivacionais ainda garantem bons resultados, principalmente quando se joga em casa. Com um jogador a mais, então… “bah, tchê!”.

Ledo e caro engano. As escolhas erradas na escalação, opção tática e substituições o levaram a tomar mais uma goleada histórica. Assim como diante do Joachim Löw, nos 7 a 1 para a Alemanha, no Mineirão, foi presa fácil para Renato Gaúcho, na Arena do Grêmio, neste 4 x 0 acachapante.

No Cruzeiro, ano passado, também achou que só o discurso motivador faria a camisa jogar.

Opiniões de entendedores de futebol de partes diferentes do Brasil, exaltaram a competência do técnico do Flamengo, em contraponto ao arcaísmo de um dos ex-mestres dele:

Diogo Olivier, um dos principais comentaristas do Rio Grande do Sul: @diogo_olivier

“A derrota do Grêmio foi para o Flamengo, mas a goleada é de Renato sobre Felipão. Um baile de escolhas, sacadas, decisões, leitura e estratégia.”

Procópio Cardozo, ex-grande zagueiro e treinador: @procopiocardozo

“As mexidas do Renato no intervalo fizeram o Flamengo voltar para o 2º tempo parecendo que estava com um a mais. O modo, a proposta, o posicionamento do time em campo muitas vezes desperta e incendeia os jogadores.”

André Rizek, do Sportv: @andrizek

“E o Renato hoje, hein? Se algum técnico tido como estudioso mexe no time como ele fez no intervalo… estaria sendo chamado de gênio agora. O time do Flamengo é ótimo, obviamente. Mas fica muito melhor quando um técnico sabe o que fazer com esse elenco…”

Edu Panzi, da Rádio Itatiaia: @edupanzi

“Tá bom que o Grêmio não jogou nada no 2ºT, o Felipão empilhou atacante, avacalhou o time e esqueceu de defender… mas que vitória monstruosa do Flamengo, com um a menos. Classificação encaminhada e chance de poupar titulares e descansar na volta. Ganhou o jogo e a semana da volta”

O multimidia gaúcho Gustavo Fogaça Guffo, excelente analista de futebol: @pitacodoguffo

“Ao torcedor gremista, é isso: até o final do ano será assim. Uma goleada contra ali, uma vitória apertada lá, e chegar no final do Brasileirão com a corda no pescoço Pode se salvar? Pode Mas será sofrido, sem dúvidas”.

E o próprio Luiz Felipe Scolari, na entrevista após os 4 a 0, em frase selecionada pelos gremistas do twitter Cultura Grêmio:  @culturadegremio

“Felipão: “Se alguém errou, fui eu. Assumo o erro.”

Enfim, a dignidade.”


Atual técnico do São Paulo, Hernán Crespo já apanhou com a torcida do Cruzeiro na arquibancada

O Tales Torraga contou essa ótima história no blog dele, no Uol:

* “O dia em que Hernán Crespo apanhou no meio da torcida do Cruzeiro”

(Tales Torraga)

A confusão de Jorge Sampaoli anteontem (21) na França fez a Argentina revirar os baús para encontrar outros casos de técnicos que enfrentaram torcedores. E um nome resgatado em Buenos Aires pela Rádio La Red causou surpresa: o de Hernán Crespo, hoje um dândi no comando do São Paulo.

A história é das mais inusitadas e foi publicada pela extinta revista El Gráfico em maio de 2008. Ou seja: a confusão de Crespo não foi necessariamente como técnico, mas mesmo assim merece ser contada. Em novembro de 1991, o River Plate recebeu o Cruzeiro no Monumental de Núñez na primeira das duas partidas da decisão da também extinta Supercopa da Libertadores.

Crespo tinha 16 anos e estava lá, dando o seguinte depoimento à publicação:

“Como eu jogava nas divisões de base, tinha o carnê dos jogadores e entrava grátis nos jogos profissionais. Na final, eu e meus amigos dissemos: ‘vamos lá para a arquibancada visitante, vai estar mais tranquilo’, mas que nada”, recordou Hernán. As imagens da final comprovam que o Monumental estava apinhado, com uns 80.000 torcedores.

“A entrada era uma bagunça, com a polícia enfrentando a torcida visitante [do Cruzeiro]. Veio a cavalaria e, sem eu fazer nada, me comí un palazo [gíria portenha que em português seria algo como ‘me desceram o cacete’]. Eu estava na minha, não era um louquinho. Não passou disso, felizmente. Conseguimos sair dali e ver o jogo. Essas finais na Argentina eram quentes.”

Virada histórica (mais…)


Nathan foi bem observado, mudou de posição e o Galo se deu bem. Agora, cuidados necessários com Savinho, para que não se torne um “foguete molhado”

Nathan em foto do www.atletico.com.br

O advogado Stefano Venuto Barbosa é uma das minhas leituras preferidas também no twitter. Acompanha noticiário até de treinos da base do Galo. Do profissional então…

Confira a opinião dele sobre o aproveitamento de jogadores da base. Me lembrei dos tempos em que o Atlético tinha parceria com o Nacional de Manaus e mandou pra lá Cerezzo e vários outros jogadores do junior. Ou da parceria com o nosso Democrata de Sete Lagoas, em 2009, que deu oportunidade para jogadores como Bernard e Jemerson aparecerem:

“Chico,

eu costumo dizer, que futebol de base é outro esporte, quantas vezes vimos jogadores irem muito bem na base e se transformarem foguete molhado? Lembro do Nathan Silva na base, jogava de volante e era extremamente comum, sempre viril, mas comum. Quando falaram em trazê-lo de volta eu não entendi, mas tenho que bater palmas pra quem teve a sensibilidade de ver, que ali estava um ótimo zagueiro, zagueiro zagueiro. De outro lado o Savinho, se queimando nas várias oportunidades que teve, que me lembro de lance dele, foi uma matada de bola estilo R10, que fez a mídia inteira vislumbrar um futuro promissor pro jogador. Depois disso foi medíocre, me parece muito imaturo. Voltá-lo pra base poderia desestimulá-lo, mas no profissional vai sumir um pouco a cada dia. Ontem ele entrou e parecia um boi que caiu do trem, teve uma função explicada por Cuca e nada fez. A saída seria um empréstimo, quando a torcida voltar e deve ser breve, se ele continuar jogando essa bolinha, não dura um jogo. Cabe a quem de direito, definir um rumo pro garoto, pode ser uma joia que está perdendo o brilho, precisando de um polimento pra ganhar casca, ou, mais um daqueles famosos casos de foguete molhado, tão comuns na nossa base.”

Stefano Venuto Barbosa

Savinho, 17 anos, em foto do @Atletico


Duas doses da vacina salvaram Virgílio Guimarães de “óbito iminente”, e ele recomenda: cuidem-se, cuidem-se e cuidem-se…

Foto: Daniel Proztner/ALMG

Na primeira mensagem do whatsapp desta terça-feira, me deparo com esta ótima notícia sobre a saúde do deputado Virgílio Guimarães, grande atleticano, com informações e recomendações da maior importância:

“Esta mensagem tem apenas o feliz objetivo de comunicar a amigos e amigas que, quase um mês após ter recebido alta hospital por Covid-19 e ter passado por tratamento intensivo durante esse período de diversas sequelas dela derivadas, finalmente recebi alta médica e consequente autorização para finalmente reassumir formalmente meu mandato na Assembléia Legislativa de MG. Agradeço a todos pelas inúmeras manifestações de carinho e apoio que recebi e me coloco à disposição de cada um para as tarefas e lutas que me forem delegadas. Aproveito para insistir na lembrança de que todos os cuidados e protocolos devem ser criteriosamente observados, mesmo por aqueles já completa e devidamente vacinados, OBRIGAÇÃO consigo mesmo e com a sociedade em geral. Digo isso por experiência própria pois fui contaminado mesmo  tomando cuidados e após duas doses da CoronaVac, vacina que,  segundo os diagnósticos, foi o fator decisivo para me proteger contra um ÓBITO IMINENTE, se assim não estivesse protegido. Continuarei em tratamentos suplementares por um ou dois meses, as sequelas  são preocupantes sobretudo diante da idade e das comorbidades, o que não pode ser esquecido por ninguém.  CUIDEM-SE,  CUIDEM-SE E CUIDEM-SE! Esse vírus não permite brincadeiras, ainda é pouco conhecido e perigosíssimo. Estou super feliz por retomar o convívio com vocês e deixo aqui meu grande e fraterno abraço para cada um e os votos de muita SAÚDE E FELICIDADE!
Virgílio Guimarães,  em 24 de agosto de 2021”

***

Parabéns e força Virgílio!

Cuidemo-nos, gente!


Mesmo em casa, América se intimida contra o Bragantino, erra muitos passes e se enrola mais no Brasileiro

Vi apenas os melhores momentos desta derrota do Coelho por 2 a 0. O segundo gol nasceu de um passe errado pelo lado esquerdo da defesa. Pelo que ouvi, foi filet para o time de Bragança Paulista, que não teve que suar demais para vencer. Pelo que escreveu o Thiago Reis, foi terrível: @thiagoreisbh “O @AmericaMG repete EXATAMENTE o mesmo filme das últimas 6 vezes que subiu a série A. A economia porca na montagem do elenco. Escolhas totalmente equivocadas pelos mesmos mandatários de sempre. Filme repetido e segue o baile…”


Empate com o Fluminense, no Rio, não foi bom, mas também não foi tão ruim

Foi uma noite de pouca inspiração do time, contra um adversário que passa por mau momento e luta contra o rebaixamento. Em entrevista ao “Bem amigos”, da Globo, logo após o jogo, Hulk manifestou a sua contrariedade e disse que o Galo “perdeu dois pontos” para o Fluminense em São Januário. Tem razão. Reclamou muito do árbitro paulista Flavio Rodrigues de Souza, que apitou pênalti maroto dele, que originou o gol do time carioca. Também tem razão, mas depois das mudanças de orientações da FIFA, os apitadores marcam ou não marcam este tipo de pênalti, de acordo com a vontade e interesse deles. No caso, o soprador de apito paulista alegou que Hulk abriu demais os braços para cortar de cabeça. Fazer o quê!?, né?

Por isso é que só vou parar de reclamar dos pontos “bobos” desperdiçados nas rodadas iniciais contra adversários da prateleira de baixo. Terminada a rodada o time está seis pontos à frente do segundo colocado, Palmeiras. Poderia estar com uma folga de verdade, não fossem os vacilos do início.

Aos 24 do primeiro tempo, tomou o gol, de pênalti, bem cobrado por Fred. Só conseguiu o empate aos 37 do segundo tempo, depois que Gabriel Teixeira, na cara do Everson, chutou para o alto e perdeu a chance de matar o jogo para o Flu. Na sequência, Sasha empatou.

Concordo com o @CrisGalo, que twittou: “Friamente o empate não foi ruim, aumentamos 1 ponto em relação o segundo colocado. Mas… o futebol de hj preocupa pra quinta contra esse mesmo time horroroso do fluminenC. Juiz inventou um pênalti na minha opinião, n daria se fosse a nosso favor.”

Na próxima rodada, a penúltima do primeiro turno, o Atlético vai a Bragança Paulista enfrentar o Bragantino, sábado, às 20 horas. O adversário que hoje venceu o América no Independência, por 2 a 0.


Apesar de “coincidências” a favor, Flamengo também perde pontos preciosos no Ceará

Foto/montagem: @Flamengo

Uma bela partida em Fortaleza e o Ceará mandou no jogo até os 31 minutos, quando Vina, fez 1 a 0. A partir daí o time do Renato Gaúcho acordou e mesmo bem desfalcado reagiu e foi pra cima. Só empatou aos seis do segundo tempo, mas continuou buscando a virada e só não conseguiu porque o Ceará fez ótima partida e também queria o segundo gol.

Foto: CearaSC

Muito bom resultado para o Atlético, mas o Flamengo tem um jogo a menos e continua fortíssimo fora das quatro linhas, além de contar com coincidências em relação às arbitragens. Como bem lembrou hoje o jornalista Victor Martins em duas twittadas: @victmartins “Na 6ª rodada o Vuaden apitou Ceará 2×1 Atlético. Deu 5 de acréscimo e aos 50 marcou uma falta para o Ceará. O lance do gol, aos 51. Na 17ª rodada o mesmo Vuaden deu uma falta frontal para o Ceará, contra o Flamengo, aos 50 do 2º tempo. Mas terminou o jogo antes da cobrança.

Victor Martins @victmartins “A regra determina que apenas para pênalti que o juiz não deve terminar a partida. Mas além de aplicar as regras, o árbitro de futebol tem que mediar e fazer com que o jogo siga da melhor maneira. É bom senso deixar cobrar a falta, por mais que extrapole o tempo.”

Que o Atlético faça o dever fora de casa contra o Fluminense nesta segunda-feira, pois são “coincidências” demais a favor de paulistas e cariocas nos momentos decisivos.


E o Palmeiras, hein!? Em casa, tomou de 2 a 0 do Cuiabá. Ruim para o América, ótimo para o Galo

Foto: @CuiabaEC

Foto/montagem: twitter.com/Palmeiras

Só pode ter sido salto alto da turma do técnico chiliquento Abel Ferreira. Dentro do seu próprio estádio e precisando vencer para diminuir a diferença em relação ao Atlético na briga pela liderança, que é de cinco pontos.

Na luta contra o rebaixamento, resultado muito ruim para o América, que tem no Cuiabá um concorrente direto nessa disputa. Está na penúltima posição, com 15 pontos, à frente da Chapecoense (seis), atrás do Sport (15), Grêmio (16), Fluminense (17), São Paulo e Bahia (18), Juventude e Cuiabá, que hoje foi para 20 pontos. O Coelho tem que vencer o Bragantino, amanhã, 20 horas, no Independência, e torcer para o Atlético fazer o mesmo contra o Fluminense, no Rio, também às 20 horas.

@CuiabaEC


A Fé de cada um: “Evangélicos dominam elite do futebol e os poucos jogadores que não rezam pela cartilha sofrem racismo religioso”

Foto: www.semferrsport.com

O tema é polêmico, até explosivo. Eu respeito a todas as religiões e entendo que Deus, de qualquer crença, está com vencedores e vencidos, não interfere no desempenho individual nem coletivo. Também não acredito em sorte para um time vencer ou um jogador fazer ou tomar gols. Tenho certeza que quem treina mais e ou quem tem mais qualidade técnica  é que faz diferença. Acredito também que esquemas extracampo existiam, existem e vão continuar existindo, no futebol e em outros esportes, e isso interfere sim nos resultados.

No dia 29 de junho, li este artigo no O Globo e gostei muito. Mas só hoje o encontrei para compartilhar com as senhoras e senhores que prestigiam este espaço. 

* Por Aydano André Motta, do O Globo:

“No jogo da fé, um Jesus onipresente entra em campo”

Evangélicos dominam elite do futebol e os poucos jogadores que não rezam pela cartilha sofrem racismo religioso

Aydano André Motta Foto: Arquivo pessoal

“Pelo amor de Deus, pelo amor que há na fé/Eu respeito seu amém/Você respeita o meu axé.” (Samba-enredo da Grande Rio em 2020).

Os indicadores apontam para o céu na celebração dos sucessos em campo — do gol ao título, da vitória à defesa improvável. Os objetivos alcançados se explicam, nas entrevistas, por um único nome: Jesus. O filho do Criador entra em campo todo dia, toda hora, no futebol brasileiro dominado pelos evangélicos, a maioria neopentecostal. Na elite boleira, parece religião única, que alcança as divisões de base dos clubes e influencia a formação dos jogadores.

O Datafolha estima que o rebanho evangélico soma 30% dos brasileiros. No futebol, fica muito maior especialmente entre as estrelas — de Neymar “100% Jesus” a Gabigol, de Felipe Melo ao goleiro Fábio, de Cássio a Firmino, de Leandro Castan a Daniel Alves, os novos atletas de Cristo dão goleada tão massacrante que inspiraram até esquete(Treinamento, do Porta dos Fundos).

— A cosmologia pentecostal tem afinidade muito grande com o neoliberalismo, valorizando meritocracia, esforço individual, obediência, foco e determinação. Os jogadores de futebol são a materialização desses valores e, em contrapartida, atribuem seu sucesso a Deus. Puro suco de pentecostalismo — diz Livia Reis, pesquisadora do Museu Nacional e do Iser, o Instituto Superior de Estudos da Religião.

Lívia explica que as igrejas apostam muito no esporte para manter a juventude nos templos, longe das ruas onde estão “os demônios”. Denominação mais famosa, a Igreja Universal do Reino de Deus promove campeonatos que mobilizam centenas de meninos. Ela alerta que a massificação produz, no ambiente profissional, uma mazela grave: o racismo religioso.

‘Sempre foi Exu’

“Nunca foi sorte, sempre foi Exu. Laroyé!”, postou Paulinho, revelado pelo Vasco e hoje no Bayer Leverkusen, em seu Instagram (487 mil seguidores), para festejar a convocação para a seleção olímpica, após se recuperar de grave contusão. Imediatamente, muitos intolerantes atacaram o filho de Oxóssi, o orixá caçador.

— Sou muito agarrado à minha fé. Minha família sempre teve muita conexão com o candomblé e a umbanda. Quando comecei a entender, gostei muito dessa filosofia de vida — diz, lamentando o preconceito nas redes. — Evito focar nesses comentários, que vêm da ignorância, da falta de informação.

Paulinho, em foto da ESPN

Perto de completar 21 anos, Paulinho garante nunca ter sofrido assédio de jogadores ou pastores evangélicos.

— Para mim, o candomblé é natural, sou eu. Não dou oportunidade para brincadeiras ou manifestações de preconceito no trabalho.

A filosofia do atacante carioca da seleção olímpica leva uma goleada do materialismo desenfreado no futebol, “puro suco” de teologia da prosperidade, doutrina religiosa que defende a bênção financeira como desejo divino para os cristãos. Criada nos Estados Unidos na década de 1950, interpreta a Bíblia de maneira não tradicional, como um contrato entre Deus e os humanos — e combina à perfeição com o projeto de riqueza súbita dos candidatos a craque.

A contaminação chega aos torcedores, que patrulham jogadores nas redes. Volante revelado pelo Bahia, Feijão, 27 anos, sofreu pesado preconceito, em 2017, quando reverenciou Ogum, o orixá guerreiro, em seu Instagram. Nos treinamentos e vestiários, alguns colegas, naquela fronteira entre a brincadeira e a conversa séria, pediram para ele não fazer trabalhos que causassem contusões entre os rivais na luta por posição.

— Pensam que a religião faz mal a alguém. Muita ignorância. Sou do candomblé desde a barriga da minha mãe e queria expor minha fé desde novo. É minha proteção, minha saúde — resume ele, hoje sem clube. —No futebol, tem muita gente de axé, que prefere ficar quieta para não se expor.

O pastor batista Henrique Vieira entende o cenário religioso do futebol como reflexo da sociedade. Sobre as vitórias esportivas, garante: Jesus não entra em campo.

— É bizarro atribuir êxito futebolístico à religião. O evangelho, em mim, gera respeito pelo derrotado na disputa — pondera ele, torcedor do Flamengo. — A teologia da prosperidade é diabólica, porque representa a riqueza individual, o contrário da partilha que Jesus pregou. O evangelho é radical, defende que se abra mão do acúmulo para a pobreza desaparecer.

Ele critica a cruzada dos evangélicos para aumentar o time dos fiéis.

— Tenho medo de um Brasil cristão no formato que se desenha. Na nossa sociedade estruturalmente racista, crescem o fundamentalismo religioso, com agressão e repressão a religiões de matriz africana. É uma violência simbólica importante —analisa, sublinhando que o cristão não tem de ser garoto-propaganda de uma denominação, nem constranger outras pessoas a entrar para uma igreja. —O problema está na construção hegemônica do cristianismo. Seja 100% Jesus nas atitudes, não numa faixa na cabeça — prega, em referência ao adereço de Neymar na festa do título da Champions do Barcelona, em 2015, e no ouro olímpico no Rio.

Atletas de Cristo

A cruzada evangélica começou a se estruturar no meio da década de 1980, com os Atletas de Cristo, associação liderada pelo goleiro João Leite (ex-Atlético-MG) o “artilheiro de Deus” Baltazar (ex-Grêmio e Fla) e o lateral (hoje técnico) Jorginho. Espalhou-se por todos os times, até na seleção. Ficaram famosos, nas Copas de 2006 e 2010, os cultos na concentração, liderados por Zé Roberto e Lúcio, entre outros. Mesmo quem não tinha religião era constrangido a participar. A prática chegou ao campo na África do Sul em 2009, quando a conquista da Copa das Confederações foi celebrada com ardente oração no gramado.

Muitos jogadores viram pastores ainda durante a carreira, como o atacante Ricardo Oliveira, líder por vários times onde jogou. (Ele e Zé Roberto foram procurados pela reportagem, mas escolheram o silêncio.) Muitos divulgam sua fé nas redes sociais, compondo panorama que impressiona pelo fervor.

— O mercado de fiéis invadiu o futebol — aponta Luiz Antonio Simas, historiador ligado aos temas populares. — Construiu-se uma ideia de sociabilidade pela fé que constrange os não evangélicos. A solidão dos jogadores favorece o discurso que acaba na propaganda, da oração em campo, do oferecimento das conquistas a Jesus. Um totalitarismo que é microcosmo da sociedade brasileira.

Filha de Ogum e torcedora do Corinthians, a filósofa Sueli Carneiro compara o futebol aos presídios, pela conversão evangélica. No esporte, a prosperidade dos astros serve de propaganda para a fé.

— Os meninos não são preparados para enfrentar o assédio. É uma estratégia de doutrinação com objetivos muito claros, que vive da renúncia ao pensamento, abdica da razão.

Eu ouvi amém?

* Aydano André Motta é jornalista. A série #nuncaésóesporte é publicada quinzenalmente, às segundas-feiras.


Atlético x Flamengo: há 40 anos, a maior vergonha do futebol brasileiro. O mistério extrapolou as quatro linhas, bem antes da bola rolar

Cobertura da revista Placar do fatídico Atlético x Flamengo no Serra Dourada  

Eu era repórter da Rádio Capital e estava lá no Serra Dourada, atrás da trave do lado esquerdo das cabines. O locutor era o saudosíssimo Vilbaldo Alves, comentarista Flávio Anselmo, Afonso Alberto, Paulo Rodrigues e o também saudoso Paulo Roberto Pinto Coelho, os companheiros da reportagem.

No dia seguinte, no aeroporto de Goiânia, João Saldanha, que era o comentarista de maior audiência do país, sentou-se ao nosso lado e disse:

__ Mineiros, a minha solidariedade. Isso foi a coisa mais indigna que já vi no futebol.

Depois, dirigiu-se a mim, que era o mais jovem do grupo, começando a carreira, e falou:

__ Meu, filho, procure outra profissão, porque o futebol acabou. Com a mercantilização desenfreada que está tomando conta, agora é só o dinheiro que manda. E vai piorar. A credibilidade se foi!

Isso foi em 1981. Em 1991, Walter Clark, jornalista, gênio da comunicação, criador do “Padrão Globo de qualidade”, um dos responsáveis pelo sucesso da emissora do Roberto Marinho, escreveu livro autobiográfico. Um dos capítulos é sobre a experiência que teve como vice-presidente do Flamengo no início dos anos 1980. Em determinado trecho ele diz: “Se pensam que não se compra mais árbitros, estão muito enganados…”

Na manhã deste sábado, o Fernando Melão lembrou no twitter dele: @FAlvesMelao “Hoje é dia de aniversário de 40 anos do MAIOR ROUBO DA HISTORIA DO FUTEBOL 21/08/1981 Serra Dourada, Goiânia”.

Muita gente comentou e retwitou, como o Milton Neves, por exemplo, que acrescentou foto de uma das páginas da revista Placar daquela semana: @Miltonneves “Éder: gesto no Serra Dourada que milhões de brasileiros fizeram naquela noite há exatos 40 anos.”

Me manifestei lá também: @chicomaiablog “E o (ir) responsável pela lambança foi premiado anos depois sendo contratado como comentarista de arbitragem e posteriormente “ouvidor” da CBF”

E imaginar que, no mês passado, um Juiz de Direito do Rio de Janeiro quis colocar o atual presidente do Flamengo, como um dos interventores da CBF.

O Alexandre Simões, dono do maior e melhor acervo da história do futebol mineiro, lembrou fatos importantes dos bastidores deste jogo e a rasteira que foi dada no Atlético, também fora das quatro linhas, para a escolha do local da partida e do trio de arbitragem. No site da Rádio Itatiaia:

* “Há 40 anos, CBF e Conmebol favoreciam o Flamengo em definição de local de ‘decisão’ contra o Atlético”

Os dois times terminaram a fase de grupos empatados e precisaram de jogo desempate por vaga nas semifinais

O jogo entre Atlético e Flamengo, no Serrra Dourada, foi encerrado aos 37 minutos do primeiro tempo

 

Capa do jornal O Globo trata do jogo encerrado por Wright, que expulsou cinco atleticanos

O Atlético x Flamengo de 21 de agosto de 1981, no Serra Dourada, que definia o vencedor do Grupo 3 da Copa Libertadores daquele ano, foi um dos jogos mais aguardados da história do futebol  brasileiro. Não só pela enorme rivalidade criada entre os dois clubes, finalistas do Brasileirão de 1980, com os rubro-negros ficando com a taça, mas também pela qualidade das duas equipes, recheadas de craques. O confronto entre atleticanos e flamenguistas pode voltar a acontecer na final desta edição de 2021, em jogo único, dia 27 de novembro, no Estádio Centenário, em Montevidéu.

Em 21 de agosto de 1981, os dois clubes fizeram a partida desempate após terminarem a chave, que contava ainda com os paraguaios Olimpia e Cerro Porteño, empatados com oito pontos.

A definição do local da partida e da arbitragem provocou uma batalha entre os dois clubes em reunião realizada na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Rio de Janeiro, em 18 de agosto de 1981.

E os bastidores desta disputa, com base nos relatos dos jornais da época, evidenciam a influência flamenguista na decisão tomada pela Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), com o aval da CBF.

O Galo queria o desempate jogado no Morumbi, em São Paulo. O Urubu, apesar do discurso de não ter preferência, pretendia o confronto no Serra Dourada, em Goiânia. O presidente da Federeção Baiana de Futebol na época, Márcio de Oliveira, chegou a oferecer a Fonte Nova, em Salvador, com uma compensação financeira aos dois clubes, mas a oferta acabou recusada.

Arbitragem

Em relação à arbitragem, a diretoria atleticana vetou José de Assis Aragão, que tinha comandado a polêmica partida decisiva entre os dois clubes pelo título brasileiro de 1980, no Maracanã, e os flamenguistas se manifestaram contrários a Arnaldo César Coelho.

Assim, se chegou ao nome de José Roberto Wright, que viria a ser o personagem da partida, com Oscar Scolfaro e Romualdo Arppi Filho como assistentes.

Como o Atlético abriu o assunto arbitragem, o Flamengo iniciou a conversa sobre local da partida e fez a absurda sugestão do Maracanã. Ela não foi aceita, pois o Galo pretendia o Morumbi. O sorteio, que era anunciado em manchete pelo jornal O Globo de 18 de agosto de 1981, dia da reunião, não aconteceu.

O delegado da Conmebol, o brasileiro Abílio de Almeida, diante do impasse entre os dois clubes, fez um contato, via telex, com o peruano Teófilo Salinas, presidente da entidade máxima do futebol sul-americano, e voltou com a decisão de que o confronto seria no Serra Dourada, o estádio pretendido pelo Flamengo, que tinha a certeza de que contaria com a maioria da torcida na capital goiana.

A viagem

Na véspera da partida, os dois clubes viajaram juntos para Goiânia, em voo que partiu do Rio de Janeiro, com a delegação do Flamengo.

Durante o trajeto, a cordialidade reinou no avião, com Zico sentando ao lado do médico atleticano, Neylor Lasmar, e Tita e Reinaldo conversando de forma descontraída.

O embarque alvinegro teve uma grande expectativa, relacionada a Toninho Cerezo. Ele estava sem contrato e sua presença na partida decisiva corria risco, mas o Atlético fez valer um artigo do Código Brasileiro Disciplinar de Futebol (CBDF) e o jogador teve que “pagar” ao clube uma suspensão que teve em 1979.

Assim, o volante viajou com o time para a decisão no Serra Dourada, onde formaria o meio-de-campo com Chicão e Palhinha.

A ficha pré-jogo publicada pelo O Globo

https://www.itatiaia.com.br/noticia/ha-40-anos-cbf-e-conmebol-favoreciam-o-flamengo-em-definicao-de-local-de-decisao-contra-o-atletico


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